Educar Vivendo
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terça-feira, 6 de outubro de 2026
DUA: Três Portas para uma Escola que Ensina a Todos
A escola contemporânea é marcada pela diversidade. Em uma mesma sala de aula encontramos estudantes com diferentes histórias de vida, ritmos de aprendizagem, interesses, experiências, potencialidades, formas de comunicação e necessidades. Diante dessa realidade, pensar uma educação verdadeiramente inclusiva exige compreender que não existe uma única maneira de ensinar, uma única maneira de aprender ou uma única forma de demonstrar aquilo que foi aprendido. É nesse contexto que o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) se apresenta como uma importante perspectiva para transformar o planejamento e a prática pedagógica.
O DUA é uma abordagem que propõe que o ensino seja planejado, desde o início, considerando a diversidade dos estudantes. Em vez de organizar uma proposta única e, posteriormente, pensar em adaptações para aqueles que não conseguem acompanhá-la, o professor é convidado a antecipar possíveis barreiras e oferecer diferentes possibilidades de acesso, participação e expressão. Dessa forma, o DUA não deve ser compreendido como uma estratégia destinada exclusivamente aos estudantes com deficiência. Ao contrário, trata-se de uma perspectiva que beneficia todos os estudantes, pois reconhece que cada pessoa aprende de maneiras diferentes.
Trabalhar com o DUA significa compreender que a diversidade não é um problema a ser corrigido, mas uma característica própria de qualquer grupo humano. Por isso, o planejamento pedagógico precisa ser flexível, acessível e capaz de oferecer diferentes caminhos para que os estudantes possam se envolver com o conhecimento, compreendê-lo e demonstrar aquilo que aprenderam.
Objetivos do DUA
O principal objetivo do Desenho Universal para a Aprendizagem é ampliar as possibilidades de aprendizagem de todos os estudantes, reduzindo barreiras e favorecendo o acesso, a participação, o desenvolvimento da autonomia e a demonstração das aprendizagens.
Nesse sentido, trabalhar com o DUA significa buscar uma prática pedagógica que possibilite que os estudantes participem ativamente do processo educativo, tenham acesso ao currículo por diferentes meios e possam utilizar diferentes formas para expressar seus conhecimentos.
Entre seus objetivos, destaca-se a necessidade de antecipar e reduzir barreiras à aprendizagem, em vez de esperar que elas apareçam para somente depois buscar soluções. Também busca ampliar o engajamento dos estudantes, tornando as aprendizagens mais significativas e relacionadas aos seus interesses, experiências e contextos.
Outro objetivo importante é oferecer múltiplas formas de representação, garantindo que um determinado conhecimento possa ser acessado por diferentes linguagens, recursos e estratégias. Da mesma maneira, busca oferecer múltiplas formas de ação e expressão, permitindo que os estudantes demonstrem suas aprendizagens de diferentes maneiras, sem perder de vista os objetivos pedagógicos estabelecidos.
O DUA também contribui para o desenvolvimento da autonomia, da participação e do protagonismo dos estudantes, uma vez que amplia suas possibilidades de escolha e de envolvimento no processo de aprendizagem.
Assim, podemos compreender que o DUA busca construir uma escola em que a pergunta não seja apenas “O estudante consegue acompanhar minha aula?”, mas também:
“O meu planejamento oferece diferentes caminhos para que todos possam aprender?”
As três portas do DUA
Uma maneira simples e significativa de compreender o DUA é imaginá-lo como uma casa com três portas de entrada. Cada porta representa um princípio fundamental do Desenho Universal para a Aprendizagem: a primeira é a porta do Engajamento, relacionada ao “por que aprender?”; a segunda é a porta da Representação, relacionada ao “o que aprender?”; e a terceira é a porta da Ação e Expressão, relacionada ao “como demonstrar o que aprendi?”.
Essas três portas não representam etapas rígidas, mas possibilidades que se articulam durante todo o processo educativo.
A primeira porta: Engajamento — “Por que aprender?”
A primeira porta está relacionada ao interesse, à motivação, ao envolvimento e à participação do estudante. Ensinar não significa apenas apresentar conteúdos; é necessário criar condições para que o estudante encontre sentido naquilo que está aprendendo.
Os estudantes não se interessam pelas mesmas coisas e não se envolvem da mesma maneira. Alguns gostam de desafios, outros preferem atividades práticas, alguns aprendem melhor em grupo, enquanto outros necessitam de momentos de maior concentração individual.
Por exemplo, ao trabalhar o conteúdo de frações, o professor pode iniciar a aula apresentando uma situação próxima da realidade dos estudantes: “Temos uma pizza para dividir igualmente entre quatro pessoas. Como podemos representar a parte que cada uma receberá?”. A partir dessa situação, podem ser utilizados materiais concretos, jogos, desafios matemáticos, trabalho em pequenos grupos e situações-problema.
O conteúdo continua sendo frações, mas são criadas diferentes possibilidades para despertar o interesse, estimular a participação e estabelecer relações com situações concretas.
Assim, o Engajamento está relacionado à criação de oportunidades para que o estudante encontre significado, propósito e motivação para aprender.
A segunda porta: Representação — “O que aprender?”
A segunda porta está relacionada às diferentes maneiras de apresentar o conhecimento. Nem todos os estudantes compreendem um determinado conteúdo quando ele é apresentado exclusivamente por meio de uma explicação oral ou de um texto escrito.
Por isso, o professor pode utilizar imagens, vídeos, músicas, esquemas, gráficos, mapas, materiais concretos, recursos digitais, experiências práticas, textos e explicações orais.
Imagine, por exemplo, uma aula sobre o ciclo da água. O professor pode explicar o conteúdo oralmente, apresentar uma imagem ou esquema, utilizar um vídeo curto, realizar uma experiência simples, construir coletivamente um mapa conceitual e relacionar o tema às situações observadas pelos estudantes em seu cotidiano.
Alguns estudantes poderão compreender melhor observando uma representação visual; outros poderão aprender mais facilmente ouvindo a explicação; outros poderão estabelecer relações mais significativas ao realizar uma experiência.
O objetivo permanece o mesmo: compreender o ciclo da água. O que se amplia são os caminhos pelos quais o conhecimento chega ao estudante.
Assim, a Representação significa oferecer diferentes formas de acesso ao conhecimento, considerando que os estudantes podem necessitar de diferentes linguagens e recursos para compreender determinado conteúdo.
A terceira porta: Ação e Expressão — “Como demonstrar o que aprendi?”
A terceira porta está relacionada às diferentes maneiras pelas quais o estudante pode participar, produzir e demonstrar aquilo que aprendeu.
Durante muito tempo, a avaliação escolar esteve fortemente associada à prova escrita. Entretanto, uma prova não é a única forma de demonstrar conhecimento.
Dependendo do objetivo de aprendizagem, o estudante pode apresentar seus conhecimentos por meio de um texto, uma apresentação oral, um desenho, uma dramatização, um vídeo, um podcast, um cartaz, uma maquete, um mapa conceitual, um projeto ou uma produção colaborativa.
Se o objetivo é verificar se os estudantes compreenderam determinado conteúdo de Ciências, por exemplo, o professor pode possibilitar que eles produzam um texto explicativo, construam uma maquete, façam uma apresentação, gravem um áudio ou produzam um pequeno vídeo.
Isso não significa diminuir o nível de exigência. Significa ampliar as possibilidades de expressão para que o estudante possa demonstrar aquilo que realmente aprendeu.
A Ação e Expressão, portanto, está relacionada à possibilidade de o estudante agir, produzir, comunicar e demonstrar suas aprendizagens por diferentes caminhos.
Aplicação prática do DUA no planejamento docente
Para que o DUA não permaneça apenas no campo teórico, é necessário transformá-lo em uma ferramenta de planejamento. O professor pode começar escolhendo um objetivo de aprendizagem e, a partir dele, pensar em diferentes possibilidades de engajamento, representação e expressão.
Imagine uma aula do 5º ano do Ensino Fundamental, cujo objetivo seja compreender a importância da preservação da água.
Em uma perspectiva tradicional, o professor poderia apresentar um texto sobre o tema, realizar uma explicação e solicitar que os estudantes respondessem a algumas questões.
Em uma perspectiva orientada pelo DUA, o mesmo objetivo pode ser trabalhado de maneira mais ampla.
Para abrir a porta do Engajamento, o professor pode iniciar a aula com uma pergunta relacionada à realidade dos estudantes: “O que aconteceria em nossa comunidade se ficássemos vários dias sem água?”. Pode promover uma conversa, apresentar uma situação-problema ou propor uma investigação sobre o consumo de água na escola.
Para abrir a porta da Representação, pode apresentar o conteúdo por meio de texto, imagens, gráficos, vídeo, infográfico, dados sobre o consumo de água e exemplos do cotidiano. Os estudantes terão diferentes possibilidades para acessar e compreender as informações.
Para abrir a porta da Ação e Expressão, o professor pode permitir que os estudantes demonstrem o que aprenderam produzindo um cartaz, escrevendo um pequeno texto, elaborando uma campanha de conscientização, gravando um áudio, criando um vídeo ou apresentando oralmente propostas para economizar água na escola.
O objetivo de aprendizagem permanece o mesmo. O que muda é a quantidade de caminhos oferecidos aos estudantes.
Essa mesma lógica pode ser utilizada em diferentes componentes curriculares.
Em Língua Portuguesa, por exemplo, ao trabalhar a produção textual, o professor pode apresentar diferentes gêneros, utilizar modelos, realizar leitura compartilhada, discutir coletivamente as características do gênero e permitir que a produção seja desenvolvida individualmente ou em parceria, considerando os objetivos estabelecidos.
Em Matemática, uma situação-problema pode ser apresentada por meio de texto, imagens, materiais manipuláveis ou situações concretas. Os estudantes podem utilizar diferentes estratégias de resolução e explicar seu raciocínio por meio da escrita, da oralidade, de desenhos ou de representações matemáticas.
Em Ciências, um fenômeno pode ser apresentado por meio de uma experiência, vídeo, imagem, texto ou observação do ambiente. Posteriormente, os estudantes podem registrar suas conclusões de diferentes maneiras, de acordo com os objetivos da atividade.
Em História e Geografia, documentos, imagens, mapas, fotografias, relatos orais, vídeos e textos podem ser utilizados para ampliar o acesso ao conhecimento. A aprendizagem pode ser demonstrada por meio de uma produção escrita, exposição oral, mapa conceitual, linha do tempo, cartaz ou projeto.
O importante é compreender que o DUA não determina uma única atividade. Ele oferece princípios para que o professor pense em diferentes possibilidades dentro de uma mesma intenção pedagógica.
O DUA e a avaliação
O DUA também provoca uma reflexão importante sobre a avaliação. Se reconhecemos que os estudantes podem aprender e se expressar de diferentes maneiras, precisamos analisar se nossos instrumentos avaliativos também permitem essa diversidade.
Avaliar com base no DUA não significa deixar de utilizar provas ou atividades escritas. Significa compreender que a avaliação precisa estar relacionada aos objetivos de aprendizagem e que, quando possível, pode oferecer diferentes formas de demonstrar o conhecimento.
O professor pode utilizar observação, registros, produções escritas, apresentações, projetos, atividades práticas, portfólios, rodas de conversa e outros instrumentos, sempre considerando aquilo que pretende avaliar.
O foco deve estar na aprendizagem, e não simplesmente no formato utilizado para demonstrá-la.
Por que todos os professores precisam conhecer o DUA?
É fundamental que o DUA seja trabalhado com todos os professores porque a inclusão não pode ser responsabilidade exclusiva de um profissional ou de um setor da escola.
A inclusão acontece na sala de aula, no planejamento, nas metodologias, nos recursos, nas relações e nas oportunidades de aprendizagem oferecidas aos estudantes.
Quando apenas alguns profissionais conhecem o DUA, existe o risco de a inclusão permanecer como uma ação isolada. Quando toda a equipe docente compreende seus princípios, cria-se a possibilidade de construir uma cultura escolar inclusiva.
Conhecer o DUA permite que cada professor reflita sobre sua prática e perceba que pequenas mudanças no planejamento podem produzir grandes possibilidades de participação.
Não se trata de fazer uma aula diferente para cada estudante. Trata-se de construir uma aula que já nasça pensando na diversidade.
Não se trata de diminuir expectativas. Trata-se de ampliar oportunidades.
Não se trata de facilitar a aprendizagem. Trata-se de remover barreiras desnecessárias para que a aprendizagem seja possível.
DUA: uma mudança de olhar
O grande potencial do DUA está justamente na mudança de olhar que ele provoca. Em vez de olhar primeiro para aquilo que o estudante não consegue fazer, o professor passa a olhar para as barreiras que podem estar presentes na própria proposta pedagógica.
Em vez de perguntar:
“Por que esse estudante não aprende?”
podemos perguntar:
“Quais barreiras podem estar dificultando sua aprendizagem e quais caminhos posso oferecer?”
Em vez de pensar:
“Ele não consegue realizar esta atividade.”
podemos pensar:
“Que outras possibilidades podem permitir que ele alcance o mesmo objetivo?”
Essa mudança aparentemente simples pode transformar a prática pedagógica.
O DUA nos convida a compreender que ensinar para todos não significa ensinar todos da mesma maneira. Significa garantir que todos tenham oportunidades reais de acesso, participação, aprendizagem e expressão.
Por isso, trabalhar o DUA com todos os professores é mais do que apresentar uma metodologia. É promover uma reflexão sobre o próprio sentido de ensinar.
Ao planejar uma aula, podemos começar com três perguntas:
Como vou envolver meus estudantes?
De quantas maneiras posso apresentar esse conhecimento?
De quantas maneiras eles poderão demonstrar o que aprenderam?
Essas três perguntas representam as três portas do DUA: Engajamento, Representação e Ação e Expressão.
Quando abrimos apenas uma porta, alguns estudantes conseguem entrar. Quando abrimos diferentes portas, ampliamos as possibilidades de que todos encontrem um caminho para aprender.
DUA é, portanto, planejar para a diversidade, ensinar com diferentes possibilidades e acreditar que todos os estudantes podem aprender quando encontram caminhos acessíveis, significativos e inclusivos para construir o conhecimento.
CAST. Universal Design for Learning Guidelines version 3.0. Wakefield, MA: CAST, 2024. Disponível em: CAST – Universal Design for Learning Guidelines. Acesso em: 6 out. 2026.
CAST. About Universal Design for Learning. Wakefield, MA: CAST. Disponível em: CAST – About Universal Design for Learning. Acesso em: 6 out. 2026.
MEYER, Anne; ROSE, David H.; GORDON, David. Universal Design for Learning: Theory and Practice. Wakefield, MA: CAST Professional Publishing, 2014.
ROSE, David H.; MEYER, Anne. Teaching Every Student in the Digital Age: Universal Design for Learning. Alexandria, VA: ASCD, 2002.
ZERBATO, Ana Paula; MENDES, Enicéia Gonçalves. Desenho universal para a aprendizagem como estratégia de inclusão escolar. Educação Unisinos, v. 22, n. 2, p. 147-155, 2018.
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília, DF: Presidência da República, 2015.
BRASIL. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, DF: MEC, 2008.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.
Dinâmica: “Mude a Rota!”
Objetivo
Levar os professores a refletirem sobre como uma atividade pode ser reorganizada para contemplar diferentes formas de aprender, sem diminuir o objetivo de aprendizagem.
Materiais
• Cartões com situações-problema;
• folhas ou cartolinas;
• canetas;
• cartões com as três “portas” do DUA:
o Representação – Como o estudante acessa a informação?
o Ação e expressão – Como ele demonstra o que aprendeu?
o Engajamento – O que o envolve e o motiva?
1. Embarque – “Todos no mesmo ônibus?”
Divida os professores em pequenos grupos e entregue a todos a mesma atividade tradicional.
Por exemplo:
“Leia o texto e responda às cinco questões propostas.”
Peça que observem a atividade e respondam:
“Será que todos os nossos estudantes conseguem realizar essa atividade da mesma maneira?”
Não dê a resposta ainda.
2. O desafio – “Mude a rota!”
Agora entregue aos grupos uma missão:
O destino é o mesmo, mas vocês precisam criar novas rotas para chegar até ele.
Cada grupo deverá transformar a atividade utilizando pelo menos duas das três portas do DUA.
Por exemplo:
Representação:
O texto poderá ser apresentado também por meio de imagens, áudio, palavras-chave, esquema ou leitura compartilhada.
Ação e expressão:
O estudante poderá responder escrevendo, desenhando, organizando cartões, gravando áudio, explicando oralmente etc.
Engajamento:
Relacionar o texto à realidade dos estudantes, oferecer escolhas, trabalhar em dupla ou criar um desafio.
3. O “Passaporte da Aprendizagem”
Cada grupo apresenta sua nova rota.
Depois da apresentação, você pergunta:
“Nós mudamos o destino?”
Eles provavelmente responderão: “Não.”
Então você provoca:
“O objetivo de aprendizagem continuou o mesmo. O que mudou?”
E conduz para a conclusão:
Mudamos os caminhos, não o direito de aprender.
Fechamento
Você pode finalizar dizendo:
“No Passaporte para o Futuro, nossa missão não é fazer todos os estudantes percorrerem a mesma estrada. É garantir que todos tenham caminhos possíveis para chegar à aprendizagem.”
E então:
PRÓXIMA PARADA: APRENDER!
Um destino. Diferentes caminhos. Todos podem avançar.
Entre o Mundo Digital e o Mundo Concreto: Desafios para uma Educação Inclusiva - FORUM Curso de Aperfeiçoamento em Educação em Direitos Humanos, Diversidades e Educação Midiática: Construindo Experiências Formativas a partir de Práticas e Vivências com a Educação Básica
A presença cada vez maior das telas no cotidiano de crianças e adolescentes traz novas demandas para a escola. Mais do que discutir se a tecnologia é boa ou ruim, precisamos compreender como seu uso tem interferido no tempo, na atenção, na aprendizagem e nas relações.
A hiperexposição midiática tem provocado mudanças significativas no cotidiano de crianças e adolescentes e, consequentemente, traz novos desafios para a escola. Entre os aspectos que mais merecem atenção estão o excesso de tempo diante das telas, a dificuldade de concentração, as mudanças nas relações interpessoais, a exposição da intimidade e da imagem, os impactos na autoestima e na saúde emocional, além da ocorrência de cyberbullying, circulação de informações falsas, contato com conteúdos inadequados e conflitos que começam no ambiente virtual e acabam chegando ao espaço escolar. Percebo que não se trata apenas de uma questão relacionada ao uso da tecnologia, mas de compreender como o mundo digital vem modificando comportamentos, formas de comunicação, aprendizagem e convivência.
Na realidade escolar em que atuo, essas questões aparecem principalmente nas relações entre os estudantes, na dificuldade de manter a atenção em determinadas atividades, na necessidade de estímulos cada vez mais rápidos e na influência das redes sociais sobre a maneira como os adolescentes se percebem e se relacionam com os outros. Muitas vezes, situações iniciadas no ambiente virtual repercutem diretamente na escola, exigindo dos profissionais uma postura de escuta, mediação e orientação. Nesse contexto, a comunidade escolar precisa compreender que o mundo digital já faz parte da vida dos estudantes e que não é possível simplesmente separá-lo do mundo concreto. O desafio consiste em estabelecer uma relação mais consciente, equilibrada, segura e responsável com as tecnologias, fortalecendo também a participação das famílias nesse processo.
Considero que o contexto trazido pelo ECA Digital amplia a responsabilidade da escola, pois nos convida a pensar a proteção de crianças e adolescentes também diante dos riscos presentes no ambiente digital. Em nossa prática pedagógica, é necessário avançar para além da utilização instrumental das tecnologias e trabalhar questões como privacidade, proteção da imagem, respeito, responsabilidade, cidadania digital, segurança, pensamento crítico e convivência. Isso precisa estar presente no planejamento de forma transversal, articulado aos conteúdos e às situações reais vivenciadas pelos estudantes. Ao mesmo tempo, reconheço que esse é um processo que ainda precisa ser fortalecido, especialmente por exigir formação continuada dos profissionais e uma maior aproximação entre escola, família e comunidade.
Essa reflexão também está diretamente relacionada à inclusão. A escola precisa reconhecer que não existe um estudante padrão e que cada sujeito chega ao espaço educativo com diferentes histórias de vida, ritmos, necessidades, potencialidades e experiências, inclusive em relação ao acesso e ao uso das tecnologias. Nesse sentido, planejar de forma inclusiva significa antecipar barreiras, diversificar estratégias, materiais e formas de participação e garantir que todos possam aprender e se expressar. O uso consciente dos recursos digitais pode, inclusive, ampliar possibilidades de acessibilidade, comunicação e aprendizagem, desde que não desconsidere aqueles que possuem acesso limitado ou diferentes necessidades educacionais.
O material disponibilizado no tópico “Conexões” contribui justamente para ampliar esse olhar, ajudando-nos a relacionar os desafios do mundo digital com o planejamento pedagógico e com a realidade concreta dos estudantes. Ele pode subsidiar momentos de estudo e formação da equipe escolar, provocar discussões com os estudantes e as famílias e inspirar atividades que abordem temas como cidadania digital, proteção, respeito, convivência, segurança e uso responsável das tecnologias.
Dessa forma, compreendo que o grande desafio colocado para a escola não é simplesmente controlar ou proibir o uso das telas, mas educar para que crianças e adolescentes desenvolvam autonomia, consciência crítica e responsabilidade diante do mundo digital. Precisamos ajudá-los a compreender que estar conectado não significa estar sempre disponível, que a tecnologia pode ser uma ferramenta de aprendizagem e participação, mas não deve substituir o brincar, o diálogo, o movimento, a convivência presencial, a leitura, a criatividade e as experiências concretas. Assim, uma escola verdadeiramente inclusiva e contemporânea é aquela que reconhece os impactos do mundo digital, protege seus estudantes e, ao mesmo tempo, cria condições para que eles aprendam a transitar de forma ética, segura, crítica e equilibrada entre o mundo digital e o mundo concreto.
Poema “Do velho ao jovem”, de Conceição Evaristo
Na face do velho
as rugas são letras,
palavras escritas na carne,
abecedário do viver.
Na face do jovem
o frescor da pele
e o brilho dos olhos
são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas
de ambos,
o velho tempo
funde-se ao novo,
e as falas silenciadas
explodem.
O que os livros escondem,
as palavras ditas libertam.
E não há quem ponha
um ponto final na história
Infinitas são as personagens…
Vovó Kalinda, Tia Mambene,
Primo Sendó, Ya Tapuli,
Menina Meká, Menino Kambi,
Neide do Brás, Cíntia da Lapa,
Piter do Estácio, Cris de Acari,
Mabel do Pelô, Sil de Manaíra,
E também de Santana e de Belô
e mais e mais, outras e outros…
Nos olhos do jovem
também o brilho de muitas histórias.
e não há quem ponha
um ponto final no rap
É preciso eternizar as palavras
da liberdade ainda e agora…
CRÔNICA NAQUELA MANHÃ - PRODITEC
Naquela manhã, a escola parecia igual a todas as outras: alunos chegando apressados, professores organizando o dia, o sinal marcando o início das aulas. Mas, em alguns cantos, havia silêncios que diziam mais do que qualquer conversa.
Ela caminhava pelos corredores tentando não chamar atenção. Dentro de si, carregava um peso que não estava nos livros nem na mochila. Era um medo constante, que não ficava em casa quando ela saía — ele vinha junto, sentado ao lado, invisível para muitos.
Na escola, nem sempre alguém percebia. Alguns colegas até notavam mudanças no comportamento: o isolamento, o olhar distante, a dificuldade de concentração. Mas muitas vezes isso era visto como “falta de interesse” ou “desatenção”, e não como um sinal de algo maior. Outros preferiam não se envolver, achando que era assunto de família. E assim, o silêncio também se tornava parte do ambiente escolar.
Havia professores atentos, que tentavam escutar nas entrelinhas, que percebiam quando algo não ia bem. Mas nem sempre era fácil identificar ou saber como agir. A violência, quando existe, não fica apenas na casa da vítima — ela atravessa a porta da escola junto com ela, se manifesta na dificuldade de aprender, na ausência de participação, na tristeza que ninguém consegue explicar direito.
Dentro dela, sentimentos se misturavam. Medo de falar e não ser acreditada. Vergonha de expor algo tão íntimo. Culpa, mesmo sem ter culpa alguma. E, ao mesmo tempo, uma pequena esperança de que alguém percebesse, de que alguém perguntasse “você está bem?” e realmente quisesse ouvir a resposta.
Nas conversas entre professores, nos relatos de colegas, nas formações e reflexões, começava a surgir outra consciência: a de que a escola não pode ser apenas um espaço de ensino, mas também de escuta e proteção. Porque quando a violência chega ao ambiente escolar, ela exige olhar atento, acolhimento e ação.
E foi nesse espaço — entre o silêncio e a fala, entre o medo e a escuta — que se entendeu algo importante: a escola pode, sim, ser o lugar onde o ciclo começa a se romper. Não de forma imediata ou simples, mas quando alguém decide não ignorar os sinais.
Porque, às vezes, tudo começa com uma pergunta que parece pequena, mas muda tudo: “o que você está vivendo?”
A Relação com o Saber: Aprendizagem, Sentido e Formação Humana ( FORUM - PRODITEC)
Caros colegas, refletir sobre Bernard Charlot nos ajuda a compreender a aprendizagem para além da simples aquisição de conteúdos escolares. Essa perspectiva nos convida a pensar o aprender como um processo de construção de sentido sobre o mundo e sobre nós mesmos, sempre mediado pelas relações humanas e sociais.
A afirmação de Bernard Charlot (2000) de que não há saber sem Relação com o Saber (RcS) nos leva a compreender que aprender não é apenas adquirir conteúdos escolares, mas construir sentido sobre o mundo e sobre si mesmo. O saber não existe isoladamente; ele sempre está ligado ao sujeito que aprende, às suas experiências, à cultura e às interações com outras pessoas.
Quando Charlot afirma que nascer é ver-se submetido à obrigação de aprender, ele destaca que o ser humano é um ser inacabado, que precisa aprender para se tornar humano. Diferente de outros seres vivos, nós dependemos da convivência com os outros para aprender a falar, pensar, agir e compreender o mundo. Assim, o saber é inerente à condição humana, pois desde o nascimento começamos a aprender por meio das relações familiares, sociais e culturais.
Nessa perspectiva, a aprendizagem não acontece apenas na escola. A criança aprende na família, na comunidade e em todas as experiências que vivencia. A escola, então, tem o papel de organizar e ampliar esses saberes, ajudando o aluno a dar significado ao que aprende. Por isso, a Relação com o Saber envolve:
• O sujeito (quem aprende e sua história de vida);
• O outro (quem ensina e compartilha saberes);
• O mundo (o contexto cultural e social onde o saber ganha sentido).
Refletindo sobre essa ideia, podemos compreender que ensinar não é apenas transmitir conteúdos, mas criar condições para que o aluno estabeleça uma relação significativa com o conhecimento. Quando o estudante percebe sentido no que aprende, ele se envolve mais e constrói aprendizagens mais profundas.
De tal modo, a afirmação de Charlot nos lembra que:
• Aprender é parte da condição humana;
• O saber se constrói nas relações;
• O aluno precisa encontrar sentido no que aprende;
• Ensinar é mediar a relação entre o sujeito e o saber.
Na prática pedagógica, isso significa valorizar os conhecimentos prévios dos alunos, suas vivências e sua cultura, pois é a partir dessas relações que o saber escolar ganha significado e contribui para a formação humana.
Referência:
CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000.
Reflexão sobre a Política de Educação Integral ( Atividade do PRODITEC)
Caros colegas!
Refletir sobre a Política de Educação Integral: tempos e espaços escolares é pensar em uma educação que compreenda o estudante em sua totalidade, considerando não apenas os aspectos cognitivos, mas também os aspectos sociais, emocionais, culturais, físicos e éticos do desenvolvimento humano. Nesse sentido, a educação integral vai além da ampliação da carga horária escolar, pois envolve a construção de práticas pedagógicas significativas, capazes de promover aprendizagens em diferentes tempos, espaços e experiências educativas.
O conceito de educação integral pode ser articulado com a definição de escola de tempo integral na medida em que ambos buscam ampliar as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes. No entanto, é importante compreender que educação integral e escola de tempo integral não são sinônimos. A escola de tempo integral refere-se à ampliação do tempo de permanência do estudante na escola, enquanto a educação integral diz respeito à formação humana em todas as suas dimensões. Assim, uma escola pode funcionar em tempo integral sem necessariamente desenvolver uma proposta de educação integral, caso mantenha práticas tradicionais centradas apenas na transmissão de conteúdos.
Por outro lado, uma escola com jornada parcial também pode desenvolver práticas de educação integral quando valoriza diferentes espaços educativos, promove participação dos estudantes, integra família e comunidade, trabalha projetos interdisciplinares e reconhece as múltiplas dimensões do desenvolvimento humano. Dessa forma, o mais importante não é apenas ampliar o tempo, mas qualificar os tempos e espaços escolares.
No município e no estado onde atuamos, a temática da educação integral em tempo integral vem ganhando maior destaque principalmente após as políticas nacionais de ampliação das escolas de tempo integral e das discussões relacionadas à recomposição das aprendizagens no período pós-pandemia. Observa-se uma preocupação crescente com:
• a ampliação da jornada escolar;
• o fortalecimento das práticas pedagógicas integradoras;
• a valorização das competências socioemocionais;
• a integração entre escola, família e comunidade;
• o uso de diferentes espaços educativos;
• a oferta de atividades culturais, esportivas e tecnológicas.
Entretanto, ainda existem muitos desafios para que a educação integral se efetive plenamente. Entre eles, destacam-se:
• limitações de infraestrutura;
• necessidade de formação continuada dos professores;
• dificuldades de financiamento;
• carência de espaços adequados;
• necessidade de reorganização curricular;
• ampliação da participação da comunidade escolar.
Mesmo diante desses desafios, em Nova Soure, temos escolas com educação em tempo integral que já apresentam experiências importantes de educação integral: com ioga, educação tecnologia, dança, aula de música e utilizam:
• projetos interdisciplinares;
• hortas escolares;
• atividades culturais;
• práticas esportivas;
• espaços externos;
• ações de convivência e protagonismo estudantil.
Assim, pensar a política de educação integral exige compreender a escola como um espaço de formação humana ampla, democrática e inclusiva, no qual os estudantes possam aprender, conviver, participar, explorar, expressar-se e desenvolver-se integralmente.
Atenciosamente
Kelly Levy
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