terça-feira, 10 de julho de 2012

Roteiro para o olhar


O pesquisador norte-americano Robert William Ott, da Penn State University, criou o seguinte roteiro para treinar o olhar sobre obras de arte, mas ele pode ser adaptado a atividades ligadas à cultura visual. O diferencial é fazer sempre a relação com a realidade do aluno:

1) Descrever

Para aproveitar tudo o que uma imagem pode oferecer, os olhos precisam percorrer o objeto de estudo com atenção. Dê um tempo para a obra se "hospedar" no cérebro. Em sala de aula, peça que todos descrevam o que veem e elaborem um inventário.

2) Analisar

É hora de perceber os detalhes. As perguntas feitas pelo professor devem ter por objetivo estimular o aluno a prestar atenção na linguagem visual, com seus elementos, texturas, dimensões, materiais, suportes e técnicas.


3) Interpreta

Um turbilhão de ideias vai invadir a classe e você precisa estar atento a todas elas, para aproveitar as diversas possibilidades pedagógicas. Liste-as e eleja com a turma as que correspondam aos objetivos de ensino. Meninos e meninas devem ter espaço para expressar as próprias interpretações, bem como sentimentos e emoções. Mostre outras manifestações visuais que tratem do mesmo tema e estimule-os a fazer comparações (cores, formas, linhas, organização espacial etc.).

4) Fundamentar

Levantadas as questões que balizarão o trabalho, é tarefa dos estudantes buscar respostas.
Elabore junto com eles uma lista com os aspectos que provocam curiosidade sobre a obra, o autor, o processo de criação, a época etc. Ofereça textos de diversas áreas do conhecimento para pesquisa e indique bibliografia e sites para consulta, selecionando os textos de acordo com os interesses e o nível de conhecimento da classe.


5) Revelar

 
Com tantas novidades e aprendizados, a turma certamente estará estimulada a produzir. Discuta com todos como gostariam de expor as ideias que agora têm. Quais são essas ideias e como comunicá-las? É hora criar, desenhar, escrever, fazer esculturas, colagens...



















Título, imagem e legenda




O universo das revistas – diversidade de leituras!


Uma forma de se trabalhar a leitura e posterior produção textual é aproveitar as revistas!

Leve para a sala uma reportagem, selecionada e adequada à idade da turma, que tenha imagem. Para que a classe visualize melhor, é interessante ampliar a página da revista, de modo que todos possam ver ao fixá-la no quadro.

A princípio, questione os alunos sobre as revistas que têm em casa, se leem alguma, se há alguma que gostam mais, etc. Nesta ocasião, também é bom explicar a diferença entre os tipos de revistas que, no geral, acompanham o assunto tratado: saúde, política, lazer, guia de informação, esportes, informações gerais, e assim por diante.

Após essa conversa, mostre a página que escolheu para a turma e pergunte: que tipo de revista vocês acham que tem esta reportagem? Neste momento, estará trabalhando a associação imagem/tema abordado.

Então, após alguns palpites, convide os estudantes a observar o título, a imagem e a legenda. Leia junto com a turma o título e a legenda e desperte o interesse dos alunos com novas questões: É possível fazer uma leitura da imagem? O que a imagem diz para nós? Qual a relação entre a imagem e o título do texto? Qual a relação da imagem e da legenda?

Depois de argumentarem e debaterem o assunto, finalize com um questionamento: Agora que nós lemos, observamos e debatemos esse texto, qual é o tema? Ou seja, sobre o que este texto vai falar?

Por associação a tudo que foi visto anteriormente, os alunos tentarão descobrir a temática textual. Mesmo que um aluno acerte, sem dizer nada, distribua o texto xerocado (não se esqueça de colocar a fonte, o nome da revista) e, para terminar, proponha a leitura do mesmo.

Para fixar melhor este conteúdo, em uma próxima oportunidade, você poderá levar uma figura aleatória e solicitar aos alunos que elaborem um título, legenda e um pequeno texto com base na imagem.

Em uma próxima aula, entregue revistas aos alunos e trabalhe outros aspectos, como: índice, rodapé, capa, propagandas, apresentação da revista, etc.



Por Sabrina Vilarinho

Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola









O uso de fotos em sala de aula

As escolhas do fotógrafo influem na nossa compreensão da situação registrada.

O uso de fotografias em sala de aula constitui uma das mais instigantes experiências reflexivas hoje utilizadas. No entanto, o uso dessas imagens passa muitas vezes despercebido no cotidiano escolar, configurando um aspecto meramente decorativo ou reforçador daquilo que já foi ensinado durante uma aula. No entanto, haveria uma maneira de se deslocar essa função secundária destinada às fotos?

Para isso, é necessário que o professor tenha o interesse de discutir junto aos seus alunos a função histórica que a fotografia possui na compreensão da realidade. Quando inventada, a fotografia passou a ser considerada uma verdadeira revolução das artes, pois com ela o homem teria a mais fiel reprodução do mundo que o cerca. No entanto, com o passar do tempo, a ideia de que as fotos somente registram o real perderam espaço para uma compreensão mais artística desse novo feito.

Mesmo tendo caráter instantâneo mediante uma situação vivida, a fotografia não deixa de ter uma leitura própria do mundo. O fotógrafo, ao utilizar suas lentes, não coloca em uso a simples funcionalidade de um instrumento automático. Cada vez que clica (e eterniza) uma determinada situação, o fotógrafo realiza uma série de escolhas que influem diretamente sobre a maneira que podemos compreender a situação enquadrada pelas lentes.

A mais importante dessas decisões envolve o próprio ato de fotografar. Ao escolher um determinado cenário, o fotógrafo não se lança a uma série de cliques indiscriminados. É importante ressaltar que o registro envolve uma escolha. Por isso, ao analisar uma foto em sala é importante que o professor saliente a maior número de dados possíveis sobre quando e onde o fotógrafo decidiu tomar uma foto. Outra importante questão é salientar dados biográficos sobre quem tirou essa mesma foto.

Partindo do autor para a foto em si, o professor pode destacar sobre como a câmera agiu no enquadramento de uma situação. Dessa maneira, é importante pensar sobre o espaço gasto em cada um dos elementos que compõe a foto. Esse tipo de questão muitas vezes salienta qual informação foi considerada mais importante na imagem. Para compreender melhor esse ponto, pode-se levar à sala duas fotos de um mesmo evento.

Para exemplificar essa questão, o professor pode fazer uso da foto de Finbarr O´Reilly que, no ano de 2005, ganhou o premio World Press Photo. Sem antes mostrar a foto em si, os alunos podem entrar em contato com algum texto informativo ou reportagem que relate sobre a crise de abastecimento que assolou a Nigéria em 2005. Sem dar maiores explicações, peça para que os alunos descrevam o que eles sentiram ao ler as informações contidas no texto.

Depois disso, reserve alguns minutos para que a sala observe a foto tirada por Finbarr O´Reilly.

Após os alunos observarem a foto, peça para que os mesmos digam qual fonte de informação foi mais impactante. Depois disso, peça para que eles registrem quais elementos mais chamaram a atenção na foto de O´Reilly e porque eles acharam determinados elementos mais interessantes. Dessa maneira, os alunos podem iniciar um trabalho de interpretação que coloca as imagens como forma de compreensão das experiências vividas no passado e no presente.

Por Rainer Sousa

Graduado em História

Equipe Brasil Escola

Como redigir uma ementa

Como redigir uma ementa


1. Definição

Ementa é uma descrição discursiva que resume o conteúdo conceitual ou conceitual / procedimental de uma disciplina.

2. Características formais
• Os tópicos essenciais da matéria são apresentados sob a forma de frases nominais (frases sem verbo);

• Não é necessário que os tópicos sejam elencados em itens (um embaixo do outro): a redação é contínua.

• Para a elaboração da ementa, que reúne conteúdos conceituais e procedimentais, podem ser utilizadas, dentre outras, expressões como: "estudo de"..., "caracterização de"..., "estabelecimentos de relações entre"..., "busca de compreensão de"..., "reflexão sobre"..., "análise de"..., "exame de questões sobre"..., "descrição de "..., "pesquisa de"..., "investigação sobre"..., "elaboração de"..., "construção de"..., "introdução a"..., "fundamentação de"..., "desenvolvimento de"..., "aplicação de"..., "explicitação de"..., "crítica de"..., "interpretação de"..., "aprofundamento de"..., "produção de"..., "criação de"..., "organização de"..., "confecção de"..., "demonstração de"..., "levantamento de"..., "definição de"..., "processamento de"..., "expressão de"..., "comunicação de"..., "participação em"..., "experimentação de"..., "detalhamento de"..., "discussão de"..., "orientação sobre"..., "comparação entre"..., "confronto com"..., "interface entre"..., etc.


3. Exemplos

1) Português Histórico: A origem e a formação da língua portuguesa. O latim clássico e o latim vulgar. A evolução fonológica, morfológica, sintática e semântica. A constituição do léxico. A expansão da língua portuguesa.

2) Didática: Análise dos efeitos das mudanças culturais, científicas e tecnológicas na Educação e na Didática. Estudo da interdependência dos elementos constitutivos das situações de ensino e de aprendizagem. Estudo dos objetivos educacionais como norteadores da ação educativa.

Educação e desenvolvimento humano frente aos elementos de estratificação social

Educação e desenvolvimento humano frente aos elementos de estratificação social

Ruy Ferreira da Silva

Doutorando em Psicologia pela Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales UCES / Argentina.

MBA Executivo Empresarial em Gestão de Recursos Humanos / ESAB.

ruyfersi@terra.com.br

Resumo

Este artigo pretende refletir sobre o contexto histórico do desenvolvimento humano, onde a educação tem uma representação crucial sendo ela elemento de transformação social entrelaçado com a capacidade de formar, em colaboração com o outro, pessoa com consciência crítica e reflexiva, passível de agir e transformar a realidade em que vive. Educação esta que tende a ser libertadora, crítica e transformadora. Entretanto, não é acessível a todas as camadas sociais, realidade que se perpetua em termos de Brasil.

Palavras-chave: Educação. Políticas públicas. Ideologia dominante.

Abstract

This article focuses on the historical context of human development, where education is represented and is it crucial element of social transformation intertwined with the ability to form, together with others, people with critical and reflective, which can act and make the reality in which he lives. Education that this tends to be innovative, critical and transformative. However, it is accessible to all levels of society, a reality that is perpetuated in terms of Brazil.

Keywords: Education. Public policy. Dominant ideology.

1 Introdução

Ao final da Idade Média, período de obscurantismo em que o pensamento humano foi refreado, a humanidade entrou na Renascença, na qual as artes e a ciência tomaram grande impulso, levando o homem a vislumbrar horizontes novos. Para acompanhar essa eclosão do intelectualismo, surgiu a necessidade de novas escolas e universidades. A partir daí, apareceram as primeiras escolas pedagógicas, tendo como precursores Rousseau, Pestalozzi entre outros. A educação se tornou uma ciência cada vez mais progressista, surgindo novos métodos e novas escolas pedagógicas, contando com a contribuição de eminentes pedagogos, tais como Piaget, Rogers e Maria Montessori.

Se por um lado, esse trabalho e a introdução de novas técnicas didático-pedagógicas auxiliaram o desenvolvimento intelectual do homem, atingindo graus nunca imaginados, principalmente nas áreas da ciência e da tecnologia, não conseguiram resolver os problemas sociais que envolvem o homem e seu semelhante, ocasionando um sério desnível entre o intelectualismo, entre a ética e a moral.

Sendo assim, é possível conceituar a educação, não como uma ciência e sim como uma arte, único elemento capaz de inverter esse desequilíbrio. Necessariamente não aquela que se aprende pelos livros e sim aquela capaz de formar os caracteres, isto é, os hábitos de ordem e de previdência.

Ao refletir mais profundamente sobre a estrutura educacional, Arnold Toynbee sinaliza que “é necessário que reexaminemos o mais rapidamente possível as formas tradicionais de educação, à luz das rápidas e profundas transformações que se têm verificado em nossa sociedade, em nossos costumes, valores, idéias e instituições” (1979, p. 82).

A Constituição Federal brasileira, teoricamente falando, garante educação para todos de forma ampla e sem restrições, porém, quando é lançado o olhar em termos práticos, as confirmações não se convergem. Mas, este distanciamento entre teoria e prática identificada no contexto educacional e que atinge diretamente a classe com menor poder político e econômico tem se apresentado de forma crônica na constituição histórico-social da nação brasileira.

Uma pergunta que está sempre a inquietar gira em torno do por que indivíduos e grupos de indivíduos ocupam posições diferentes no espaço social? Buscar uma resposta para tal indagação é que tem caracterizado o pensamento sociológico.

Ao analisar os caminhos da estratificação social é possível considerar que “os obstáculos que aqui se formam, visam, em regra, a resistir à transição de um regime rígido de classes fechadas para um regime mais aberto de classes sociais móveis e flexíveis” (Pinto, 1986, p.108).

A educação tende a ser o caminho mais curto para que haja uma quebra efetiva nestes paradigmas sociais e as políticas públicas, mas efetivamente as políticas educacionais precisam ser fortalecidas, dando margem para que novos horizontes se abram diante dos olhos das classes menos privilegiadas.

A meta da educação consiste no desenvolvimento simultâneo das faculdades morais, físicas e intelectuais. Mas, para que essas bases configurem de forma sólida no desenvolvimento humano, é mister se fará necessário que o acesso a educação seja mais democrático e de qualidade para todos.

“A educação passou a ser vista como fator chave para o avanço da ciência, para a eliminação dos problemas sociais e para o funcionamento das instituições democráticas” (Streck, 2009, p. 90). Se na democracia o povo é soberano, se torna necessário educar o soberano. Sem a verdadeira educação, isto é, sem a educação integral do ser humano, como sustentar os ideais democráticos?

2 O desenvolvimento humano a partir da perspectiva educacional

O desenvolvimento do ser humano ocorre de forma ininterrupta e gradativa, obedecendo a certa ordem e regularidade, significando que se processa por etapas, ou seja, fases e estágios. Logo, as etapas seguem uma seqüência que é invariável, não havendo saltos, embora possa ocorrer mais depressa ou mais devagar.

O processo de desenvolvimento ocorre ao longo de toda a vida do indivíduo, desde a concepção até a maturidade havendo um paralelo no desenvolvimento concomitantemente do organismo, do cérebro e do comportamento. Isto significa que as capacidades mentais e comportamentais só surgem com base na maturação do sistema nervoso que inclui o cérebro e todo o organismo.

As aquisições necessárias à transição de um estágio do desenvolvimento para outro não são feitas instantaneamente, ocorrem ao longo do tempo. Devido à continuidade do desenvolvimento é que uma fase da vida influencia as outras fases posteriores.

A não aquisição de competências das fases do desenvolvimento que lhes são propícias pode comprometer seriamente as fases seguintes. A velocidade e a intensidade do processo de desenvolvimento não são as mesmas ao longo de todo o processo.

O desenvolvimento é o processo pelo qual o ser humano se forma enquanto ser biológico, psicológico, sociológico, cultural e espiritual, desde o momento da concepção até a morte. Ocorrendo de forma interativa constante entre o indivíduo, sua estrutura biológica e mental, e o meio em que se encontra inserido.

Ao falar deste desenvolvimento nele também está inserido o processo de estruturação da consciência e é a partir do alargamento desta que o indivíduo se auto-reconhecerá como cidadão inserido dentro de um estado de fato e de direito e fazendo parte de toda uma engrenagem política, social, econômica, cultural, religiosa, educacional etc.

Paulo Freire (1981, p.56) afirma que:

Na medida em que os seres humanos atuam sobre a realidade, transformando-a com seu trabalho, que se realiza de acordo como esteja organizada a produção nesta ou naquela sociedade, sua consciência é condicionada e expressa esse condicionamento através de diferentes níveis.

É através da perspectiva educacional que o indivíduo encontra recursos de primeira grandeza para alicerçar e edificar todo esse processo em si mesmo. Permitindo-se desenvolver potencialidade latente e que uma vez acordada tendem a consolidar as bases da subjetividade.

Segundo Félix Guattari (1990, p.46):

As sociedades capitalísticas fabricam hoje em dia, para colocá-las a seu serviço, três tipos de subjetividade: uma subjetividade serial correspondendo às classes salariais, uma outra à imensa massa dos “não-garantidos” e, enfim, uma subjetividade elitista correspondendo às camadas dirigentes.

Compreendendo melhor esta reflexão de Félix Guattari, é possível entender de forma mais transparente o porquê do acesso a educação ser dificultado às classes menos favorecidas. Ora, para manter um indivíduo na subserviência procede ao fato de sonegar a ele acesso a educação.

“Mais uma prova de que a educação libertadora, problematizadora, já não pode ser o ato de depositar, ou de narrar, ou de transferir, ou de transmitir ‘conhecimentos’” (Freire, 1997, p. 39) pura e simplesmente, ela precisa fazer este indivíduo alçar vôo cada vez mais alto e vislumbrar horizontes mais distantes da realidade que lhe fora imposta.

Por este viés de entendimento fica claro que a educação consolida a humanização e esta bem como aquela, juntas, tendem a idealizar o indivíduo consciente das suas ações em relação a si mesmo, ao outro e a sociedade na qual está inserido.

3 A influência da educação nos elementos de estratificação social

A busca pela reflexão sobre a história da educação no Brasil tem sinalizado que o fator educação não é prerrogativa de fácil acesso para todas as classes sociais. Desde as raízes da colonização até a contemporaneidade, há de forma clara e evidente o impedimento das classes menos privilegiadas aos escaninhos do conhecimento. Porém, ao que se refere às classes que detém o poder econômico, o poder político, o privilégio, tudo se processa com mais facilidade na educação.

Entretanto, este cenário tem mudado, ainda que lentamente, o contexto histórico educacional ao longo destes séculos tem se mostrado um pouco mais favorável para as classes menos abastadas, mesmo não sendo o ideal.

Segundo Georg Lukács (1960) com o capitalismo, com o desaparecimento da estrutura estamentária e com a constituição de uma sociedade de articulações puramente econômicas, a consciência de classe alcançou uma fase em que pode se tornar consciente[1], permitindo que a luta social se refletisse em uma luta ideológica para a consciência, a revelação ou a dissimulação do caráter de classe da sociedade.

Para José Carlos Libâneo (1994) a revelação de uma sociedade de classes apresentou de forma evidente a desigualdade social entre os homens, que em sua origem refere-se a uma desigualdade econômica, que não só determina condições materiais de vida e trabalho, mas também de uma diferenciação de acesso a educação ou a cultura espiritual.

A educação como fenômeno social se credencia como parte integrante das relações sociais, econômicas, políticas e culturais de uma determinada sociedade. Seu credenciamento sofre porem um desvirtuamento de suas ações, ao invés de ser uma prática educacional transformadora, se comporta como prática educativa socialmente determinada. Obedecendo a interesses vinculados a estrutura e dinâmica das relações entre classes e impondo valores, normas e particularidades da estrutura social, através de exigências sociais, políticas e ideológicas.

A diferenciação quanto ao acesso à educação vista de forma nítida com a ascensão do capitalismo, apresenta acesso a uma escolarização deficiente e conformista para trabalhadores, enquanto que, a minoria dominante dispõe de meios para difundir sua própria concepção de mundo, conseguindo influenciar de tal forma o sistema, que suas idéias, valores e práticas são concebidos pelas demais classes como representativas de todos.

De acordo com Luiz Maggi (2006), na elaboração da Constituição de 1988, a discussão girava em torno de posições ideológicas de defesas de suas próprias concepções sobre educação. O bloco progressista defendia posições historicamente associadas com o movimento popular, com gratuidade do ensino em todos os níveis e a responsabilidade do estado a nível educacional. O bloco conservador tentava articular uma postura educacional vinculada ao acumulo de capital, favorecendo os interesses da classe dominante, tentando transformá-la em mercadoria e submissa a lógica mercadológica.

Os resultados do debate entre progressistas e conservadores em relação à esfera política e na implementação da constituição de nosso país, comprovou a influência do contexto econômico na transformação de uma sociedade industrial, pautada pela produção material em uma sociedade da informação. A produção industrial coexiste com a produção simbólica e o processo de globalização dos mercados, possibilitado pelo avanço das tecnologias, que altera as relações existentes entre a sociedade, o conhecimento e o desenvolvimento cultural do homem (Maggi, 2006).

Em consequência do avanço da tecnologia ocorre a automação dos processos de produção e organização do trabalho, principalmente no que se diz respeito à informatização, determinando mudanças no perfil de mão-de-obra e relações sociais no universo do trabalho. A partir dessa concepção a escola passa a ter a responsabilidade de capacitar o homem a tornar-se um ser autônomo, criativo, inquiridor de novos conhecimentos voláteis, devido à necessidade de responder a rapidez em que se avançam as técnicas de produção em geral (Maggi, 2006).

O papel primordial da educação alinhada aos interesses da classe dominante é o de imposição de uma ideologia que valorize o desenvolvimento material e individual, pregando a necessidade do aperfeiçoar-se tecnicamente para responder as expectativas cada vez mais fragmentadas e especializadas da produção material. Em consequência dessa valorização, o aprendizado e a formação ocorre por meio de conteúdos técnicos ao invés de uma formação critica e reflexiva, produzindo uma sociedade individualista, aversa a discussão de problemas sociais e sem postura critica da realidade (Maggi, 2006).

As marcas do passado repercutem nos dias atuais e nos sistemas de ensino a nível mundial. Soarin (2009) relata que em um estudo com alunos de escola primária da França, os filhos de pais com escolaridade de nível superior possuíam 71% de probabilidades de obterem uma qualificação final de notável, enquanto, os filhos de pais operários não qualificados possuíam 35% de probabilidade, permanecendo evidências plausíveis de que a diferenciação de classes mantém privilegiados a minoria dominante. Ao manter essa diferenciação, a distribuição dos alunos estará sempre sendo feita em função da classe social e não do rendimento escolar.

O aumento da diversidade de ofertas educacionais torna a escola um espaço dinâmico de aprendizagem com cursos de informática, línguas estrangeiras e cursos pré-vestibulares (Streck, 2009). Os pais sabendo disso e podendo comprar serviços educacionais investem em competências necessárias para a inclusão na sociedade em posições de vantagem para seus filhos.

A busca de soluções é constantemente almejada a partir de modelos novos de educação. Na Espanha tem se buscado alcançar uma educação transformadora na implantação da lei LOGSE, que possui um currículo compreensivo, de uma análise dos métodos utilizados na escola, com objetivo de não se perpetuarem os inconvenientes de um acesso desigual (Soarin, 2009).

Nesse contexto, Martí (apud Streck, 2009, p.91) define que:

Educar como o ato de depositar em cada homem toda a obra humana que lhe antecedeu: é fazer de cada homem o resumo do mundo vivente, até o dia em que ele vive: é pô-lo em nível de seu tempo para que flutue sobre ele e não deixá-lo debaixo de seu tempo, com o que não poderá sair a flutuar; é preparar o homem para a vida.

Levando em consideração essa perspectiva, o acesso a educação será livre para todos, sem privilégios de classes sociais que até então tem se mantido nas mãos de poucos pertencentes à elite dominante.

4 A educação frente às políticas públicas no Brasil

A questão educacional no Brasil sempre esteve ligada ao poder aquisitivo familiar. Levando em consideração que o Brasil é um país de extensão continental onde a educação, bem como a renda e outros indicadores sociais, ao longo do tempo têm sido marcados por relações conflitantes entre diferentes segmentos sociais.

Ao se referir a políticas públicas em âmbito educacionais vale ressaltar que o sentido etimológico difere da política partidária que é mais comum ouvir falar. Carl Ransom Rogers afirma que “política diz respeito aos efeitos de tais ações orientadas para o poder sobre indivíduos ou sistemas” (Rogers, 1983, p. 93). Pensar desta forma sobre políticas públicas em educação é pensar o modo pela qual as decisões são tomadas. Quem as toma propriamente? Qual é o centro do poder de tomada de decisões? Em prol exatamente de quem tais decisões são revertidas? Essas e outras tantas questões sugere profunda reflexão, no entanto, difícil tem sido encontrar respostas bem como soluções dignas para uma educação mais humana.

Um dos elementos que Rogers (1983) trás à tona é a dimensão do poder presente na educação. A perspectiva contida numa abordagem centrada na pessoa quando aplicada à educação, tende a levar professor, aluno e gestor a rever o conceito de “poder sobre” outros indivíduos. Além do mais, a aplicação da visão humanista à educação passa a ser um caminho a seguir no sentido diminuir as diferenças entre as classes sociais, bem como subtrair a força das ideologias dominantes.

A produção de conhecimento sobre o atual desenvolvimento de políticas públicas de educação, pela perspectiva da redução da desigualdade de gênero no sistema público de ensino brasileiro, é ainda escassa e segue a tendência geral das pesquisas de gênero na educação, caracterizadas pela precária divulgação (Rosemberg, 2001).

Ainda que não seja alvo principal desta reflexão, vale à pena sinalizar a partir das referências que Rosemberg (2001) faz quanto à discriminação de gênero no contexto educacional brasileiro, pois, as políticas públicas não têm privilegiado a população de uma forma igualitária, deixando de proporcionar acesso amplo e irrestrito a todos os brasileiros para a educação.

Embora esteja escrito na Carta Magna que “todo o cidadão brasileiro deve ter acesso à educação…” [2] isto não acontece na realidade, pois existe ainda uma parcela muito grande de adultos, jovens e crianças que não tiveram a chance de serem alfabetizados. Ou seja, a escola pública não consegue atender toda essa demanda e a escola privada de caráter elitista recebe apenas os que tem poder aquisitivo.

Como consequência a escola pública é sem qualidade, com docentes desprestigiados, baixo investimento da gestão governamental, estruturas sucateadas, com o objetivo de desmobilizar os educadores públicos e facilitar a privatização do ensino.

A maioria da população brasileira frequenta as escolas públicas, entretanto quem tem acesso às universidades públicas são os estudantes oriundos das escolas privadas, pois estes estão mais bem preparados. A porta de entrada para a universidade acontece através do chamado exame vestibular onde os estudantes das escolas privadas são mais bem preparados no ensino médio, com condição financeira para frequentar os cursos preparatórios.

Para que haja justiça social e que todo brasileiro independente da condição financeira tenha direito a educação de qualidade, são necessários entre outras iniciativas, investimentos adequados na educação pública, melhor estrutura física, melhores condições de trabalho e de salário aos educadores, currículos e didática atualizados, e a clareza de que somente com educação universalizada e de qualidade o Brasil e os brasileiros sairão da difícil situação em que se encontram.

Enquanto as oportunidades e as condições educacionais não forem iguais para todos, serão necessárias ações de proteção em caráter paliativo a grupos mais vulneráveis.

Mais de um século depois a educação continua a ser um problema no Brasil, pois de uma grande parte de sua população que se matricula no ensino fundamental menos de 1% (Meksenas, 2002) consegue concluir, existindo um grande número de analfabetos funcionais, isso porque há o desejo das ideologias dominantes em manter o controle da maior parte da população. Além do mais, transferir aos mais humildes a responsabilidade por não terem capacidade de estudar, logo passam a ser um problema social.

Segundo Verza (2000) para formar futuros cidadãos que participem do espaço público, é necessário incentivar as crianças no período de sua tenra idade nas escolas a participarem de grêmio estudantil, e dessa forma vão criando cidadãos conscientes que se preocupam com o bem estar de sua rua.

Bom será o dia em que aqueles que são responsáveis pelas políticas públicas no Brasil estejam plenamente sensibilizados com o valor da educação libertadora em todas as fases de desenvolvimento humano. A começar da criança que quando bem direcionada, bem preparada e bem conduzida nas suas potencialidades, dará sinais de um futuro homem de bem e consciente da reponsabilidade perante si mesmo, ao outro e a sociedade na qual está inserido.

É necessário repensar o conceito de ação em políticas públicas para a educação que visa a formação do cidadão crítico e que saiba lutar pelos seus direitos, sendo co-responsável pela sua comunidade e consciente das suas necessidades.

Por fim, pensar em políticas públicas é pensar na participação do cidadão tanto no micro quanto no macro universo, é ter consciência de sua participação no espaço público que está interligado ao bem coletivo.

5 Considerações

Este artigo demonstrar que o ser humano vive uma época em que a consciência de que o mundo passa por transformações profundas é cada dia mais forte. Esta realidade provoca em muitas pessoas e grupos, sentimentos, sensações e desejos contraditórios, ao mesmo tempo de insegurança e medo, que proporciona apatia e conformismo como também de novidade e esperança, que mobiliza energias e criatividade para a construção de um mundo diferente e mais humano. Diferença de classe, analfabetismo, ideologia dominante, exclusão social, educação para poucos, estratificação social. Estes fenômenos se interpenetram em processos contínuos de hibridização.

As políticas públicas educacionais não podem ignorar esta realidade. O impacto destes processos no cotidiano é cada vez maior. A problemática atual da educação de primeiro, e segundo graus, particularmente as das grandes cidades onde se multiplicam uma série de tensões e conflitos, não pode ser reduzida aos aspectos relativos à estruturação interna da cultura escolar e esta necessita ser repensada para incorporar na sua própria estruturação estas questões e novas realidades sociais e culturais.

A reflexão sobre o papel da educação em uma sociedade cada vez mais de caráter multicultural, é recente e vem crescendo no nível internacional e, de modo particular no Brasil e na América Latina. No entanto, a gênese desta preocupação obedece a origens e motivações diferentes em diversos contextos, como o europeu, o norte-americano e o latino-americano. De qualquer modo, é a própria concepção da educação, suas funções e relações com a sociedade, o conhecimento e a construção de identidades pessoais, sociais e culturais que está em questão.

A educação está construída sobre a afirmação da igualdade, enfatizando a base comum a todos os cidadãos. Como articular a igualdade com a diferença, a base comum com as expressões da pluralidade social e cultural, constitui um grande desafio. É a discussão sobre estas questões, articuladas com a reflexão sobre os processos de mudança cultural e social vivido que permitirá construção do papel da educação.

Esta abordagem apresenta um amplo horizonte, especialmente desafiante e enriquecedor, para o desenvolvimento da pesquisa e do debate sobre as questões relativas ao papel da educação e desenvolvimento humano frente aos elementos de estratificação social.

O fato é que a experiência de educação multicultural, utilizando diferentes abordagens e metodologias, vem se multiplicando no contexto europeu e norte-americano, assim como uma ampla produção acadêmica vem se desenvolvendo, acompanhada da promoção de pesquisas na área.

Nesta articulação se condensa o desafio de promover uma educação crítica na sociedade brasileira, que promova processos complexos de transformação profunda. Atualmente requer ampliar este enfoque e considerar a educação como um princípio orientador e norteador das potencialidades do ser humano integral.

Referências bibliográficas

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MAGGI, Luiz. A filosofia da linguagem, as tecnologias educacionais e a educação matemática: Piaget, Vigotsky e Wittgenstein como paradigmas epistemológicos referenciais. Campinas, SP: [s.n.], 2006. Orientador: César Apareciddo Nunes. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas.

PINTO, Costa. Sociologia e Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986.

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SAORIN, J. Molina. Serão realmente especiais as necessidades educativas dos

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VERZA, Severino B. As Políticas Públicas de Educação no Município. Ijuí: UNIJUÍ, 2000.

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[1] História e Consciência de Classe, Georg Lukács, Ed. PCUS, 1960.

[2] Constituição da República Federativa do Brasil, 1988.

ATIVIDADE 2 – Realize uma resenha critica do texto - Educação e desenvolvimento humano frente aos elementos de estratificação social

O Projeto Nova Soure: Nossa Terra, Nossa Gente visa o resgate e a valorização da história da cidade de Nova Soure/BA. Logo, que o cidadão sem sua história não condiz com o ser humano que o século XXI anseia, para tomar decisões o mesmo tem que se reconhecer como sujeito social. Na sociedade os conteúdos informacionais circulam quase exclusivamente via meios escritos, através da Internet, da televisão, dos outdoors com informes publicitários, dos jornais, das revistas, dos panfletos, dos catálogos e muitos outros veículos de comunicação.

Sendo assim, o processo de apropriação da informação e da construção de novos conhecimentos se configura como um processo ativo que está intimamente ligado à leitura. Por isso, o uso social da leitura é algo contextualizado que acontece em diferentes espaços e não obedece a nenhuma regra específica e nem a um padrão sociolinguístico pré-definido.

Pensar em leitura enquanto prática social pressupõe pensar nas múltiplas relações que o sujeito-leitor exerce na interação com o universo sociocultural a sua volta. Por meio do estimulo a leitura, esporte e incentivo do trabalho dos professores enquanto mediadores do processo ensino e aprendizagem pretende auxiliar na formação do cidadão.

Formar cidadãos é promover ações que o mesmo reconheça o seu potencial e ao mesmo tempo tenha consciência de seus direitos e deveres. Por meio de ações aos quais permitam o conhecimento do local que se vive, de sua gente ( os índios, os negros, os portugueses) que aqui estiveram deixaram sua cultura e permitiram a formação do município de Nova Soure/BA. Estabelecer o desenvolvimento da oralidade, criatividade e desenvolvimento motor e sensorial, ou seja, uma educação holística será o ponto chave para auxiliar a formação do educando, que nos tempos atuais não é mais aceito uma escola cuja função é simplesmente conteúdista, se faz necessário: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conhecer e a aprender a viver juntos, por meio dos pilares da educação o projeto Nova Soure: Nossa terra, nossa gente, busca executar ações com a premissa de formar cidadãos. Pensar, conhecer, saber, intuir e ousar são as mais recentes palavras que devem dominar o vocabulário dos indivíduos que compõem a sociedade

A cidadania é construída por meio da formação do individuo e não só em sala de aula, quando o mesmo aprende conteúdos passados de geração a geração, valores, direitos e deveres. Por este motivo será realizada a ação o qual permitirá em sala de aula o reconhecimento da historia de Nova Soure, assim, como o trabalho com o esporte por meio da 2ª Olimpíada Escolar, elaboração de material para stands e apresentações.

Não basta apenas saber ler e escrever é preciso também fazer uso do ler e do escrever, para saber responder às exigências de leitura e de escrita que a sociedade faz continuamente, daí surge o termo letramento, ressignificando a ideia principal que se tinha do saber ler e escrever, buscando definir um novo padrão de usuário da língua que se mostre apto a atender às demandas da sociedade contemporânea.

Parabéns a todos que contribuiram para a execução da 2ª Olimpíada Escolar.


Comunidade Escolar - Professores, estudantes, funcionários, familiares dos educandos, coordenadores e diretores.
Equipe interna da SEMEC (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO E CULTURA) - podemos não ser muitos mas ajudamos fazer a diferença.
José Arivaldo Ferreira Soares
PREFEITO

Robélia Aragão da Costa
SECRETÁRIA DE EDUCAÇÃO E CULTURA


André Luis Ferreira Santos
SECRETÁRIO DE ADMINISTRAÇÃO

Valéria Saldanha Carvalho
SECRETÁRIA MUNICIPAL DE AÇÃO SOCIAL

Gladys Amorim Teixeira
SECRETÁRIA DE SAÚDE

Durval Batista dos Santos Filho
SECRETÁRIO DE AGRICULTURA

Barimar do Nascimento
GESTOR DO DEPARTAMENTO DE ESPORTES

Jecilene Barreto Coutinho
Joanna Patricia Santana Rodrigues
Kelly Chrystine Guedes Levy
Osvaldineide Pereira de Oliveira Reis
DEPARTAMENTO DE COORDENAÇÃO GERAL DO PLANEJAMENTO PEDAGÓGICO DA EDUCAÇÃO BÁSICA E ESPECIAL

Kelly Chrystine Guedes Levy
Robélia Aragão da Costa
ELABORAÇÃO DO PROJETO


PSICOPEDAGOGIA: SUPERANDO A FRAGMENTAÇÃO DO CONHECIMENTO E DA AÇÃO




Neide de Aquino Noffs

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Causa-me perplexidade esta reação de ataque e não de diálogo do Conselho Federal de Psicologia. Já presenciei esta ação quando a própria Psicologia, ao diferenciar-se da Psiquiatria, exigiu respeito às suas ideias ao novo que emergia.

A Psicopedagogia é uma intersecção entre a Psicologia e a Pedagogia?

Não. Ela é um novo conhecimento que nasce a partir da intersecção, é a própria intersecção. Isso significa que tanto destas disciplinas, quanto de outras como: filosofia, linguística, etc, são selecionados conhecimentos específicos que colaboram na compreensão do objeto da Psicopedagogia (que é o processo de aprendizagem, como se constrói o conhecimento) desta forma, quem fez curso específico de Psicologia, e de Pedagogia, não encontrará necessariamente a Psicopedagogia.

Ela é uma ação que nasce deste conhecimento interdisciplinar, mas esta ação é voltada para subsidiar o sujeito cada vez mais em sua própria aprendizagem, neste sentido, o processo de aprendizagem é que é estudado criteriosamente pela Psicopedagogia, bem como as dificuldades dela decorrentes.

Qual o objeto de estudo da Psicopedagogia?

O objeto de estudo é o processo de aprendizagem, o processo utilizado pelo sujeito enquanto construtor de seu conhecimento. Algumas pessoas ao estudarem aprendizagem entendem que o contrário da aprendizagem é a dificuldade da aprendizagem, mas não entendo desta forma, o contrário da aprendizagem é a não aprendizagem.



As causas da não aprendizagem podem ser de três naturezas distintas:

a. Não aprenderam porque não passaram por um processo sistemático de ensino;

b. Foram ensinadas, mas por algum motivo externo ao sujeito (didática do professor, filosofia da escola, número de alunos por classe, problemas sociais, culturais, etc.), não aprenderam;

c. Finalmente não aprenderam por dificuldades individuais específicas (orgânicas e emocionais).

Cabe ao psicopedagogo inicialmente diferenciar as situações facilitadoras/dificultadoras pelas quais as pessoas passaram resgatando seu processo (incluindo na história de vida a aprendizagem) Exemplo: Como andou? Como falou? Como se adaptou à escola? Como reagiu frente às tarefas escolares... Posteriormente identificar o quando e o porquê.

Qual o profissional que estaria qualificado no mercado de trabalho para atuar no processo da aprendizagem?

No curso de formação em Pedagogia, a prioridade está nas atividades de ensino, neste sentido a pedagogia está ligada à docência e posteriormente aos especialistas em educação (orientador educacional, orientador pedagógico, administrador escolar).

No curso de formação em Psicologia, a prioridade está no conhecimento das teorias psicológicas explicando o sujeito em detrimento às teorias de ensino.

As duas formações geram uma necessidade de uma complementação, de um aprofundamento, partindo da articulação de como ocorre o processo de aprendizagem sem deslocar do seu contexto real. Entendo a articulação como a não fragmentação do conhecimento e da ação nos modelos vigentes.

Neste sentido, surgem um novo conhecimento e um novo profissional, com uma nova atuação que não pode ser a justaposição de conhecimentos e ações, e sim, articulação e adequação à situação vivida. Não cuidar desta nova atuação, como nova profissão, implica em correr riscos no exercício desta atividade, assim a Psicopedagogia deverá ser normalizada e legalizada, dentro destes princípios.

Este conhecimento e atuação só podem ser propostos em um curso de formação em nível de pós-graduação, onde a meta é propiciar a transferência para a sociedade destes conhecimentos construídos cientificamente.

Além desta, devemos acrescentar que o psicopedagogo emerge de um grupo de profissionais que já tenham uma experiência advinda de áreas afins. A psicopedagogia inicialmente se apresentou como uma especialização que influenciou a própria mudança da Educação, conforme Cezar Coll (entre outros) escreveu em seus livros. Com o passar do tempo, esta especialização gerou uma ação tão específica que só aquele que fez a psicopedagogia, é que pode exercer a psicopedagogia. Neste sentido, é que regulamentar esta profissão se faz essencial para garantirmos a redução de distorções da prática. O mercado já tem pedagogos e psicólogos qualificados, precisamos garantir psicopedagogos também qualificados através de formação e regulamentação da profissão.

Portanto, este profissional precisa ter uma sólida construção teórica, uma vivência significativa na realidade, conviver com o ambiente de produção de conhecimentos a partir de um comprometimento ético.

Há no mercado cursos que atendam essa especificidade?

A partir da nova LDB de nº 9394/96 houve uma abertura para novos cursos que atendessem à necessidade do futuro. É a responsabilidade de pessoas que no presente que propiciem a sobrevivência do homem em uma sociedade de mudanças.

Convivíamos antes da LDB com a resolução nº 12/83 que criava cursos de pós-graduação em nível de especialização e aperfeiçoamento que se destinavam à qualificação de docentes para o magistério superior e que tinham a duração mínima de 360 h não computando o tempo de estudo individual ou em estudo sem assistência docente.

Simultaneamente convivíamos com o curso de pós-graduação stricto sensu cuja intenção era o aprofundamento de um conhecimento de uma determinada área que culminaria na construção de novas idéias que beneficiassem a sociedade como um todo. Porém, em 16/12/98, foi criada a portaria nº 80 da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para o aprimoramento de conhecimento ou técnicas de investigação científica, tecnológica ou artística, visando uma atuação mais dinâmica e efetiva no mercado.

Foi denominado de mestrado profissionalizante, uma vez que não implica na eliminação do mestrado anteriormente denominado acadêmico, sua intenção é desenvolver capacidades de concepção e elaboração de projetos, visando à área profissional garantindo a compreensão e resolução de problemas imediatos, porém direcionadas para o futuro.

Ou seja, a sociedade exige profissional, com perfis diferenciados e habilidades específicas para enfrentar um mercado diversificado e em constante renovação, neste sentido o psicopedagogo se apresenta como um dos que atendem a esta nova necessidade, o que justifica a sua formação em nível de pós-graduação. É o encontro da universidade com as exigências da sociedade. Neste encontro se exige do profissional, maturidade, experiência profissional mínima, e ter passado por um processo de aprendizagem reflexiva e consciente. Isto só é atingido num processo de interação, ação, atuação, e construção de conhecimento “útil” às pessoas.

Inicialmente a pós-graduação latu-sensu, com 360 h apenas, propiciava uma especialização sem a intenção de profissionalizar, porém a Psicopedagogia de forma intuitiva já propunha esta formação com uma carga horária e exigência acadêmica maior, aproximando-se das idéias envolvendo atualmente o mestrado profissionalizante.

Em minha compreensão a Psicopedagogia neste momento deveria fazer parte das pós-graduações em nível de mestrado e não em nível de lato-sensu, os cursos que trabalho já vivem isso há muito tempo.

Esta nova profissão estaria criando uma nova reserva de mercado?

É comum encontrarmos atualmente em cada família, uma pessoa que precise de apoio em seu processo de aprendizagem, estas famílias têm procurado psicopedagogos na tentativa de entender o que está acontecendo com seus filhos se afastando de “rótulos” precipitados.

O que buscam é o atendimento que facilite o retorno de seu filho ao processo de aprendizagem escolar e não mais subsídios familiares que protelam de forma muito significativa este retorno. A família não nega seu problema, porém ela espera o atendimento à escolaridade de seu filho reduzindo a repetência, a evasão, a troca de escola como soluções aos problemas escolares e a ajuda efetiva junto aos profissionais da escola e à própria família. O psicopedagogo participa ativamente em parceria com profissionais de diferentes áreas como: psicólogos, fonoaudiólogos, médicos, etc, sem perder a sua especificidade e nem utilizar instrumentos que são exclusivos de outras áreas como testes psicológicos.

Este atendimento ocorre em nível clínico e a regulamentação desta profissão permitirá a expansão deste atendimento às diferentes camadas sociais.

Nossas crianças empobrecidas têm este atendimento clínico junto aos cursos de formação em Universidades como: PUC de São Paulo, Faculdade São Marcos, UNI Santana, Universidade Potiguar, Instituto Sedes Sapienthiae, além de trabalhos específicos como em Brasília junto às Secretarias de Educação, etc.

Esta profissão cria um novo mercado de trabalho e não uma reserva, visto que já há mais de 30 anos os psicopedagogos atuam.

Como Doutora em Educação, como entende esta reação do Conselho Federal de Psicologia, quando ataca veementemente a questão da profissionalização do psicopedagogo?

Causa-me perplexidade esta reação de ataque e não de diálogo.

Já presenciei esta ação quando a própria Psicologia, ao diferenciar-se da Psiquiatria, exigiu respeito às suas ideias ao novo que emergia.

Cuidar do sujeito psíquico não poderia ser exclusividade de psiquiatras e sim de parceria entre psiquiatras e psicólogos.

O conhecimento psicológico é inicialmente retirado da psiquiatria e nem por isso se confundia, ou invadia campos. Surgia um novo fazer que na opinião (inicial) dos psiquiatras era inconsistente, pois lidar com o sujeito psíquico requeria lidar com patologias e medicamentos apropriados, abrir mão deste fazer significaria não favorecer a cura do sujeito, protelar a solução...Psiquiatras aceitaram os argumentos dos psicólogos.

Várias escolas preferem profissionais formados em psicopedagogia. Legalizar esta profissão amplia o mercado de trabalho para pedagogos e psicólogos que convivem harmoniosamente no momento da formação. Não aceito os argumentos que o fazer psicopedagógico deveria acontecer naturalmente na ação dos professores. Lido com eles a mais de 30 anos, e este conhecimento não fragmentado, ainda não chegou com esta força, pois a tendência (psicologizar ou pedagogizar), ocorre.

Só uma formação específica gera um fazer específico.

Por que não um profissional específico?

Respeito o Conselho Federal de Psicologia quando “Cuida da Profissão de Psicólogo”, porém não aceito a posição de exclusão do psicopedagogo no mercado de trabalho.

Há no Brasil por volta de 20.000 profissionais em efetivo exercício, deixemos que a sociedade decida a quem recorrer em caso de assuntos envolvendo a aprendizagem.

“O psicopedagogo é o profissional do novo milênio”

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Neide de Aquino Noffs - Doutora na área da Educação pela Universidade de São Paulo, com tese na área da Psicopedagogia; Docente na PUC/SP e na Universidade São Marcos; Assessora e docente do curso de Psicopedagogia no Rio Grande do Norte - UNP; Assessora em instituições escolares nos Estados de São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul; Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia - gestão 95-96/97-98.

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