terça-feira, 6 de outubro de 2026

CRÔNICA NAQUELA MANHÃ - PRODITEC

Naquela manhã, a escola parecia igual a todas as outras: alunos chegando apressados, professores organizando o dia, o sinal marcando o início das aulas. Mas, em alguns cantos, havia silêncios que diziam mais do que qualquer conversa. Ela caminhava pelos corredores tentando não chamar atenção. Dentro de si, carregava um peso que não estava nos livros nem na mochila. Era um medo constante, que não ficava em casa quando ela saía — ele vinha junto, sentado ao lado, invisível para muitos. Na escola, nem sempre alguém percebia. Alguns colegas até notavam mudanças no comportamento: o isolamento, o olhar distante, a dificuldade de concentração. Mas muitas vezes isso era visto como “falta de interesse” ou “desatenção”, e não como um sinal de algo maior. Outros preferiam não se envolver, achando que era assunto de família. E assim, o silêncio também se tornava parte do ambiente escolar. Havia professores atentos, que tentavam escutar nas entrelinhas, que percebiam quando algo não ia bem. Mas nem sempre era fácil identificar ou saber como agir. A violência, quando existe, não fica apenas na casa da vítima — ela atravessa a porta da escola junto com ela, se manifesta na dificuldade de aprender, na ausência de participação, na tristeza que ninguém consegue explicar direito. Dentro dela, sentimentos se misturavam. Medo de falar e não ser acreditada. Vergonha de expor algo tão íntimo. Culpa, mesmo sem ter culpa alguma. E, ao mesmo tempo, uma pequena esperança de que alguém percebesse, de que alguém perguntasse “você está bem?” e realmente quisesse ouvir a resposta. Nas conversas entre professores, nos relatos de colegas, nas formações e reflexões, começava a surgir outra consciência: a de que a escola não pode ser apenas um espaço de ensino, mas também de escuta e proteção. Porque quando a violência chega ao ambiente escolar, ela exige olhar atento, acolhimento e ação. E foi nesse espaço — entre o silêncio e a fala, entre o medo e a escuta — que se entendeu algo importante: a escola pode, sim, ser o lugar onde o ciclo começa a se romper. Não de forma imediata ou simples, mas quando alguém decide não ignorar os sinais. Porque, às vezes, tudo começa com uma pergunta que parece pequena, mas muda tudo: “o que você está vivendo?”

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